Tertúlias em Belém do Pará

Arte................Rito...................Rua...............Güera

Relato das Tertúlias em Belém do Pará


Durante o Seminário Arte, Rito, Rua e Güera (NUAR/UFRJ)

2005

 

Levei para o Círio de Nazaré uma proposição sem saber o que lá iria encontrar. Esta é a melhor parte de uma performance e também o seu sentido.  Minha busca é dar todo espaço possível ao imponderável. Desta vez, foi tragicômico. Josette Lassance, poeta e artista paraense, responsável pelo registro fotográfico da interferência, não sem motivo, teve uma crise de pânico em virtude da multidão aglomerada na procissão. Ela dizia: - Luiza, não consigo respirar, vou me sentir mal, estou mal, e eu, fingindo não estar preocupada com a situação dela, repetia: coloca a cabeça para cima que tem bastante ar...que bobagem, tá tranquilo!

Em meio ao povo que estava quase em transe, imagino que deva existir uma corda, verdadeira, pois o que vejo é apenas uma impressionante corda humana com extensão que pensava chegar a uns seis quarteirõs. Eram homens e mulheres colados, acoplados uns nos os outros, com suor escorrendo por seus rostos, num misto de dor, sofrimento e resignação.

Enquanto isto, retirava tecidos de seda, nas cores branca, vermelha e preta que tinham sobrado de uma performance que havia feito na favela do Rio das Pedras- RJ (Evento do Açúcar Invertido no Ano do Brasil na França), colocava-os em torno de meu corpo e ia acompanhando o Círio ao lado da "corda santa".

Josette já mais calma começou a fazer o registro. Os peregrinos, por sua vez, ao perceberem uma movimentação diferente, subitamente mudaram suas expressões. A rebanhada mesmo exausta no instante das fotos, como numa transmutação de suas forças, sorria. Milagre tecnológico! Nesse momento reiniciava mais um dos vários tumultos e atropelos, isto em meio a muitos policiais com as caras amarradas. Misturados ao povo e sem que nada pudessem fazer eles agiam como meros espectadores tensos. Percebi aí outra situação interessante e mais uma vez tentei cuidar do registro e ao mesmo tempo me integrar a um fluxo de acontecimento. Perplexa, vi que minha amiga fotógrafa estava saindo totalmente de controle, do meu e do dela.

Teimosamente segui em frente e resolvi me posicionar entre os policiais. Depois de algum tempo entre eles e sem que registro algum fosse feito, o inusitado se perdeu e em meio a tanta estranheza da conjuntura, acabei sendo apenas mais uma delas! A dureza dos policiais diante da máquina fotográfica também foi perdida: eles começavam a me adorar, ou melhor, adorar serem fotografados! Daí a pouco recomeçou outro tumulto e fomos levadas por mais de um quarteirão numa direção diferente daquela por nós escolhida.

 Desta vez, resolvi respeitar os limites impostos pela situação, retirando-me do meio do turbilhão humano. Bastante impressionada também com o Carro dos Milagres que carregava pedaços de corpos em gesso e plástico comprados na Igreja de Nossa Senhora de Nazaré e ofertados para Nossa Senhora de Nazaré em troca por milagres. Outro dos tantos momentos inesquecíveis daquele domingo.

 

Ainda sob o impacto da experiência, volto meu interesse para a abertura de Arte, Rito, Rua e Güera, seminário que me levou a Belém.  Sua abertura aconteceria em um terreiro de umbanda, o que me provocou a dar continuidade ao processo iniciado na procissão.

Quando cheguei ao terreiro, ele já estava fechado. Sem a preocupação de chamar alguém para ver ou participar da intervenção, pedi permissão à Mãe de Santo, Mametu, para entrar no espaço com Arthur Leandro, amigo/ professor/ artista multimídia,  que iria fazer o registro fotográfico da ação.

Então, rasguei os tecidos no tamanho de lenços normais deixando-os cair no chão. Com os lenços criados formei aleatoriamente um quase círculo, deixando-os de um modo muito próximo ao que sugeriam ao cair ao chão. Amarrei-os entre si, alternando as cores, conectando fronteiras coloridas.  Juntei-os enrolando em torno ao meu corpo; senti vontade de ir a uma grande ante-sala próxima ao terreiro que estava praticamente vazia e ali, quase que impulsivamente, comecei a “dançar” reagge, apresentado por um grupo da região. Neste instante, a maior parte dos lenços que havia “conectado” anteriormente, desfizeram, “magicamente”, seus nós em pleno ar retornando ao chão, seguindo seu próprio curso, passando a entrar em outras histórias, pois ficaram com as pessoas que lá estavam.

Mais tarde, um capoeirista, umbandista e componente do grupo de reagge, chamado Bruno, olhando as fotos na máquina fotográfica me perguntou se eu havia feito um Ebó. Questionei sobre do que seria um Ebó e fiquei sabendo ser uma oferenda destinada a fazer uma limpeza espiritual.

Assim, eram diversas as coincidências entre o ritual religioso da Umbanda e minha performance: no Ebó, durante o ritual também rasgam tecidos nas cores vermelha, branca e preta, só que neste caso fazem isto por acreditarem estar afastando maus espíritos e reunindo boas energias. Foi interessante perceber que as razões pelas quais escolhi as cores dos lenços, a partir da cultura gaúcha, eram bem próximas às da crença do ritual do Ebó. Na cultura, o branco é paz, o vermelho é revolução e o preto é luto. Convém lembrar que em uma performance as coisas, os lenços, não representam, existem por si só.     

De fato, no Pará, tudo se deu como “Arte, Rito, Rua e Güera”! Na sexta-feira, dia do encerramento do seminário, fizemos uma Tertúlia, vivência proposta desde 2002, porém no Pará teve o nome de tertuliAoado. O Avoado é uma espécie de Tertúlia paraense.

Quando mais nada parecia poder ocorrer Orlando Maneschy, um professor/performer/fotógrafo de Belém, me convenceu, com direito a torcida pró e contra, a radicalizar num corte de meus cabelos. Dizia ele querer fazer uma deformance. Naquela noite de sexta pra sábado não dormi, fui direto para o aeroporto. ............ Deixei meus cabelos no norte e voltei para no Rio morar. Adeus Belém do Pará!