Branco sobre Branco

Branco sobre Branco


Luiza Helena Guimarães


Branco sobre Branco é um dispositivo imagético e performativo que criei neste ano para o 12MaisLapa1.

Refere-se à sexta intervenção de uma série, iniciada em 2004, a qual denomino de Tertúlia. Embora mantenham a mesma poética, cada trabalho adquire distintas características em função do contexto que tensiona e de trabalhos que se desenrolam entre minhas experimentações artísticas e pesquisas acadêmicas.


Em Branco sobre Branco utilizo projeções do audiovisual Tertúlia Indígnats sobre meu corpo e sobre telas de seda branca, estruturadas por outros corpos.

O audiovisual foi produzido a partir da performance que fiz na Puerta del Sol em Madrid, 2011, durante a “spanish revolution”, constituída pelo Movimento 15-M e Indignados. Tais trabalhos estão imersos no que é chamado de momento de crise da atualidade, crise que engloba as instituições e a vida em sociedade nos aspectos econômicos e políticos da globalização do capital.

Em janeiro do ano passado, logo que cheguei à Espanha, pude sentir em minha pele estrangeira a instauração do descontentamento que detonou movimentos de protestos ao redor do mundo. Parecia-me estar presente no ar, nos gestos e nos olhares, o medo de perder um estilo de vida já conquistado, acompanhado pelo instinto de preservação fundado por esta cultura.

O audiovisual em questão levou o nome de Tertúlia Indgnats por ser narrado em catalão, idioma falado até hoje como forma de resistência já que era proibido durante a ditadura franquista. A narrativa se refere ao texto extraído de A Floresta de Cristal, no qual o antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro cita o relato de Davi Kopenawa (líder político da tribo indígina Yanomami) sobre os Xapiripës, ancestrais animais ou espíritos xamânicos que entram em relação ritual e mítica com os xamãs de seu povo. No texto, Kopenawa reivindica os direitos dos Yanomamis à existência em nossa cultura.Trata-se, portanto, de colocar em tensão duas culturas igualmente complexas: a indígena e os modelos democrático e econômico vigentes na atualidade.

Se por um lado, os protestos que começaram em maio de 2011, envolvendo manifestações em 58 cidades espanholas, pranteavam mudanças políticas, econômicas e sociais profundas, por outro, a performance e o audiovisual buscam questionar o modelo hegemônico de nossa cultura.

As imagens da Tertúlia na Puerta del Sol possuem elementos visuais como tecidos na corres vermelha, branca e preta, que são tradicionalmente utilizados na indumentária gaúcha, cultura comum aos argentinos, uruguaios e a nós, brasileiros do Rio Grande do Sul e de parte de Santa Catarina. Estes elementos foram introduzidos durante uma revolução que, grosso modo, definiu as atuais fronteiras entre estes países.

Na poética de Branco sobre Branco as cores dos lenços passam a ser usadas em minhas vestes e, na medida em que me dispo do preto e vermelho, incorporo ao branco que permanece, camadas de memórias, tanto dos trabalhos artísticos anteriores, quanto dos acontecimentos políticos e sociais que se sucederam até o 12M de 2012. Os outrora lenços brancos, agora são também telas de projeção de imagens que se confundem com meu corpo, tornado, também, superfície capaz de refletir as diferenças entre cores, luzes e sombras. Imagens tão fortemente afirmadas, na continuidade da performance são bruscamente negadas. As três telas paralelas, uma após a outra, são rasgadas, divididas, devolvidas à sua condição poética inicial de lenços brancos.

Os lenços rasgados caem sobre a estrutura, corpos dos integrantes do grupo de teatro de Marta Peres (ECO/UFRJ). As telas, liberadas da função de absorver e refletir imagens, transformadas em lenços, irão adquirir outras camadas, traçar outros caminhos, fazer novas conexões.

Infectados foi o nome da apresentação deste grupo. Efetivamente, Branco sobre Branco ativou potências de criação ao integrar e/ou gerar distintos imaginários. Nesta dimensão a expressão artística pode ser definida como ética, política e estética.